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Quando a empatia vira algoritmo: estamos substituindo vínculos por respostas
A autora analisa o uso da IA para terapia e companhia, e discute os impactos culturais dessa tendência
Vivemos uma era marcada por duas forças simultâneas e contraditórias: o avanço da inteligência artificial generativa e uma epidemia silenciosa de solidão. Esse paradoxo tem gerado um fenômeno global: pessoas estão usando a IA não só como ferramenta de produtividade, mas como companhia emocional.
Fiquei especialmente impactada com um texto potente da autora Mônica Magalhães — que analisa o gráfico mais compartilhado de 2025 sobre os usos da IA — e me peguei refletindo sobre como estamos, cada vez mais, terceirizando até os nossos vínculos afetivos. A pesquisa citada por Mônica mostra que, em 2025, “terapia e companhia” se tornou o principal uso da IA, ultrapassando áreas tradicionalmente dominadas como geração de ideias ou produção de conteúdo.
Essa virada me provocou. Me vi refletindo, com certo desconforto: será que estamos terceirizando até nossos vínculos afetivos? Não é difícil entender o porquê. A IA está disponível 24 horas por dia, não julga, é paciente e muitas vezes gratuita. Diante disso, milhões de pessoas encontram nessas interações um alívio imediato para sentimentos como frustração, angústia e solidão. Plataformas como Replika, Character.
AI e até apps chineses como Maoxiang se tornaram fenômenos de massa ao oferecer companheiros virtuais que “se importam”, escutam e, mais recentemente, até fazem videochamadas com aparência humana.Mas o que está em jogo aqui vai além da inovação tecnológica — estamos diante de uma transformação cultural. E na nossa consultoria, temos sentido isso na prática: empresas nos procuram porque suas equipes estão emocionalmente frágeis, com dificuldade de lidar com o contraditório e de manter vínculos autênticos. Nossos programas de team building passaram a lidar menos com performance e mais com reconexão — com os outros e com si mesmo.
Recentemente, vivi algo que me marcou. Após uma palestra sobre maturidade emocional, uma participante se aproximou e disse: “Você falou coisas que eu só tinha coragem de contar para o meu assistente IA”. Aquilo me atravessou. Era um elogio, mas também um alerta.E talvez esse seja o ponto central: relações humanas envolvem frustração. Quando interagimos com outra pessoa real, lidamos com a diferença, com a espera, com o inesperado. Já a IA oferece o oposto: fricção zero. É esse conforto previsível que está, pouco a pouco, moldando nossas expectativas emocionais.
Como sociedade, precisamos fazer uma escolha consciente: se não cuidarmos, a tecnologia que deveria aproximar pode nos anestesiar — e isolar ainda mais.
A IA pode, sim, ser uma ponte. Especialmente num país como o Brasil, onde o acesso à saúde mental ainda é um privilégio. Em um cenário onde uma sessão de terapia pode custar de R$200,00 a R$600,00 e o sistema público é sobrecarregado, ter alternativas pode ser um alívio. Mas precisamos de clareza: não podemos usar soluções tecnológicas para resolver dilemas emocionais que exigem presença, escuta e afeto.
Empatia verdadeira exige humanidade. Discordar, acolher, insistir. Isso, nenhuma máquina será capaz de simular por completo. A inteligência artificial deve nos apoiar — nunca nos substituir. Que ela seja uma ferramenta para nos reconectar com o essencial: gente cuidando de gente.“Máquinas podem aliviar. Mas só gente de verdade pode curar.”
Por Virginia Planet, sócia da House of Feelings, primeira escola de sentimentos do mundo.
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