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Inflação abaixo de 3% está longe
Cultura do passado e indexação de contratos impedem que o país registre índices de preços menores que os atuais.
Apesar de ter abandonado muitos dos péssimos hábitos adquiridos durante os anos de hiperinflação, como fazer a “compra do mês” no dia do pagamento, o brasileiro ainda guarda na memória traços da época. Tanto que 15 anos de estabilidade, alguns mecanismos de indexação e de reajuste de produtos e serviços continuam sustentando uma inflação estrutural, resistente até mesmo à forte queda dos alimentos, como se vê agora. Para agentes do mercado, esse piso inflacionário está situado entre 3% e 4% e é influenciado, entre outros fatores, pela renda, mais precisamente o salário mínimo, parâmetro para boa parte dos reajustes que perturbam o Banco Central.
O primeiro grupo que carrega a inércia inflacionária é o de preços administrados pelo governo: tarifas de energia elétrica e de telefonia, combustíveis, passagens de ônibus e pedágios, entre outros. De acordo com Maria Andreia Parente Lameiras, técnica de planejamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a influência dos índices de preços anteriores nos preços regulados pelo setor público tem diminuído com o passar dos anos, mas ainda guarda relação com inflações passadas.
Nos preços livres, que são impactados diretamente pela política de juros do BC, os mecanismos mais comuns de transmissão são os contratos formalizados, dos quais o aluguel de imóveis é o mais representativo. Entretanto, a maior influência, segundo Maria Andreia, está no incremento dos salários e da renda do trabalhador. “Não é uma regra, mas o que vemos é que o aumento do salário mínimo acaba contaminando, com algum percentual, o reajuste nos preços dos serviços”, destaca. A relação pode ser observada de forma mais clara em segmentos que dependem mais diretamente de mão de obra como empregados domésticos, cabeleireiros, pedreiros, mecânicos, manicures, entre outros.
Diagnóstico à vista
Um exemplo da persistência inflacionária pôde ser observada em 2006. Mesmo com o avanço de apenas 1,22% nos preços de alimentos — que têm grande peso no orçamento das famílias e, portanto, na inflação —, o menor desde 1997, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 3,14%. Movimento semelhante está sendo desenhado este ano, no qual as taxas de junho e de julho ficaram em zero, a despeito de o grupo alimentação ter computado deflação de 0,9% e de 0,7%, respectivamente. O mercado como um todo aposta firme em um índice fechado para o ano de 5%.
Na avaliação de Lameiras, é possível reduzir a influência dos mecanismos de indexação nos preços futuros, mas dificilmente ela poderá ser eliminada. “Existem casos em que a indexação é inevitável e a inflação passada servirá de base para a correção de alguns contratos”, diz a técnica do Ipea, órgão que, em parceria com o Ministério da Fazenda, desenvolve estudos para diagnosticar, mais claramente, quais são os pontos mais críticos que sustentam essa espécie de círculo vicioso inflacionário.
Poupança
O piso da inflação, arrastado de um ano para o outro, dificulta a redução das metas perseguidas pelo BC, que tem a prerrogativa de controlar o avanço de preços. A meta deste ano e do próximo é de 4,5%, com intervalos de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Tal percentual está acima da média verificada entre os países desenvolvidos (de 1% a 2%) e entre os emergentes (2% a 3%).
Independentemente das dificuldades para a definição de um objetivo menor, o próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, já admitiu ao Correio que, ao longo dos anos, o Brasil precisará perseguir uma meta de inflação de 3% ao ano. Nas últimas decisões do Conselho Monetário Nacional (CMN), composto pela autoridade monetária e pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento, o BC tem sido voto vencido no debate sobre a redução da meta.
Apesar de reconhecer a influência da indexação nos índices correntes, Maria Andreia acredita que é possível acomodar a inflação estrutural em uma meta mais enxuta. “Em relação a outros países, de fato, nossa meta é alta. Mas esses mecanismos não impedem o BC de perseguir uma taxa menor”, afirma.
O BC se debate ainda para resolver a indexação da caderneta de poupança à taxa referencial (TR). Da forma como está estruturada hoje, a correção dos depósitos, de 0,5% ao mês ou de 6% ao ano além da TR, estabeleceu um piso para a taxa básica de juros (Selic). “Esse assunto é espinhoso e somente um presidente da República em início de mandato terá condições de fazer o que deve ser feito: mudar o sistema de correção da poupança, que implicará em alterações nos contratos de financiamento da casa própria e do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), ambos atrelados à TR”, afirma um técnico da Fazenda.
IGP-M acelera em agosto
» Os analistas estão de olho na primeira prévia de agosto do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) que será divulgada hoje. Na avaliação do economista Elias Celestino, do Banco Santander, o indicador mostrará aceleração dos preços, reflexo do aumento de 35% do minério de ferro no mês passado. Ele aposta em taxa de 0,45% ante o 0,14% de igual período de julho. Pelas suas contas, ainda não haverá repasse total da alta no minério para a inflação, mas, ainda assim, o impacto no IGP-M será de 0,44%. O economista chama a atenção ainda para o comportamento dos produtos agropecuários, pois a deflação registrada em coletas anteriores de preços deve diminuir, devido ao aumento dos preços dos bovinos e da soja. Já o leite e o milho ajudarão a aliviar o indicador. O IGP-M deve trazer duas boas notícias: a manutenção da queda do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e a desaceleração do Índice Nacional da Construção Civil (INCC).
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