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Com real forte, Brasil perde competitividade em serviços
País passou da 5ª para 12ª posição em ranking de exportação
Gustavo Brigatto
O grande esforço feito pelo Brasil nos últimos anos para se tornar uma referência na exportação de serviços de tecnologia da informação (TI) está ameaçado por conta da valorização do real. Segundo levantamento da consultoria A.T. Kearney, o país perdeu sete posições entre os locais mais atrativos para terceirização de atividades como desenvolvimento de sistemas e call center. A perda de competitividade limita-se basicamente ao câmbio, que aumentou o custo da mão de obra, mas as empresas estão deixando de ganhar contratos por conta do novo cenário.
"Está muito difícil concorrer a partir do Brasil", diz Federico Tagliani, vice-presidente do grupo
Segundo o levantamento da A.T. Kearney, entre 2007 e 2009 o real acumulou uma valorização de 20,5% em relação ao dólar. Para efeito de comparação, a rúpia, da Índia, variou 1,3% e o peso mexicano desvalorizou-se 2,1%. Em um setor que requer um número maciço de funcionários e no qual de 70% a 80% dos custos estão ligados ao pagamento de mão de obra, o real forte levou o Brasil a despencar no ranking deste ano em relação a 2007. De acordo com o estudo, o país caiu da 5ª para 12ª posição, abrindo espaço para Indonésia, Egito, Filipinas, Chile, Jordânia, Vietnã e México. A lista, elaborada no último trimestre de 2008, leva em consideração aspectos financeiros, de capacitação de pessoal e o ambiente de negócios em 50 países durante 24 meses.
Antônio Almeida, presidente da A.T. Kearney, explica que a valorização do real fez com que o custo dos profissionais brasileiros se aproximasse muito do patamar dos Estados Unidos - principal comprador de serviços terceirizados no mundo e referência de custos para o setor -, afetando a colocação do Brasil no ranking. "Como nos outros países o custo já era bem mais baixo, a variação do câmbio teve impacto menor para eles", diz Almeida.
Para Tagliari, do grupo Assa, não é possível enxergar uma melhora no cenário por pelo menos mais dois anos. "Argentina, Uruguai e México estão se tornando muito atrativos" afirma o executivo.
Na avaliação de Antônio Carlos Gil, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom), a questão cambial tem um impacto importante na prestação de serviço "offshore", mas ela é compensada em parte por medidas como as reduções de tributos para o setor concedidas pelo Governo Federal em agosto. O decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva reduziu pela metade a incidência de INSS na folha de pagamento e isentou as empresas exportadoras de recolher a contribuição ao Sistema S (Sesc, Sebrae, Sesi e Senai). Os benefícios têm vigência de cinco anos. A meta da Brasscom é levar o Brasil a um volume de exportação de serviços de TI de US$ 3,5 bilhões em 2010. Segundo Gil, o valor pode ser atingido facilmente. "A indústria está crescendo acima de 20% mesmo com a crise", diz.
Nos últimos cinco anos, os esforços brasileiros fizeram a exportação de serviços saltar de pouco mais de US$ 200 milhões anuais para quase US$ 3 bilhões. É um crescimento expressivo, mas o valor ainda é muito pequeno se comparado aos US$ 41 bilhões exportados pela Índia.
Para Cesar Castelli, presidente da subsidiária brasileira da Tata Consultancy Services (TCS), da Índia, o aumento no custo está segurando o desenvolvimento do setor no Brasil. "É um interesse estratégico da companhia, mas com o cenário atual está muito difícil conseguir novos contratos", diz. Segundo o executivo, a exportação de serviços representa hoje 10% do faturamento da filial, mas poderia chegar a 50% por conta da capacitação do pessoal contratado, do fuso horário e de outras características que beneficiam o Brasil na oferta de serviços "offshore".
Na IBM, que vinha apresentando crescimento forte na exportação de serviços nos últimos quatro anos, o ritmo deve ficar mais lento por conta da valorização do real acumulada em 2009. "Vamos crescer menos por conta do real e dos impactos da crise", diz Tony Martins, responsável pela área de terceirização de aplicativos da empresa. Segundo o executivo, uma das estratégias para driblar o aumento dos custos é a especialização em algumas tecnologias, como os mainframes (computadores de grande porte). Para Ribeiro, da Accenture, esta também tem sido a saída para manter a relevância do Brasil na disputa por contratos. Mas o foco na especialização também apresenta riscos. "Outros países vão gerar o mesmo conhecimento. Por isso, é preciso criar coisas novas sempre", diz.
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